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VII Congresso de Gestalt-Terapia do Estado do Rio de Janeiro – 2019

Eu já estava feliz com o convite da Graça Gouveia para o congresso no Instituto Gestalt em Figura, aí em 2019 ela e a Carla Alegria me chamaram para compor uma mesa LINDA com elas, e foi não só uma honra, como uma experiência de valorização do meu trabalho e caminhada na psicologia e na Gestalt-terapia.

O tema do congresso era direitos humanos e nossa mesa se focou em homofobia.

Segue o resumo enviado para o congresso:

Quais corpos tem direitos?

A monstrificação de gêneros que estão fora do binarismo e suas implicações clínicas.

Palavras-chave: trânsito de gênero; monstro; abjeção; direitos humanos; Gestalt-terapia.

Pretendemos propor nesse trabalho pensar a monstrificação de corpos que não encaixam no binarismo de gênero. A categoria monstro se refere a algo repugnante, ininteligível, aquilo que ultrapassa as fronteiras da humanidade. Como fazer uma clínica de direitos humanos para quem não tem a humanidade reconhecida socialmente? Avanços já foram conquistados, como a equiparação de crime de racismo para homofobia e a transfobia, mas ainda não sabemos como a lei será garantida. É urgente pensar como a Gestalt-terapia pode contribuir para uma ampliação de ajustamentos sócio-culturais, facilitando o reconhecimento do trânsito e da não fixação binária como dimensões humanas criativas e transformadoras.

PROPOSTA:

Este trabalho problematiza o caráter normatizador que é dado ao corpo e ao que lhe é permitido ou não, a partir daí, pensar a tentativa de invisibilizar e o caráter de “monstrificação” que é imposto àqueles que, porventura, venham a construir suas identidades na possibilidade de trânsito e plasticidade de gênero, o que desconstrói aquilo que está sedimentado social e culturalmente como identidade de ser mulher/homem. Como se esses que rompem com a norma perdessem seu caráter de humanidade, para assumirem um corpo que é visto como abjeto, ininteligível aos olhos dos que tem a norma binária heterossexual como centro norteador. 

Abjeção é definida como um estado degradante de baixeza, assim, algo abjeto ultrapassa as barreiras do humano, desvirtua-se em algo ininteligível, desprezável, monstruoso. Butler (2016) destaca os esforços feitos por uma determinada política, em que identidades são normatizadas em uma espécie de “unidade” ininteligível, ao que a filósofa questiona como sendo uma provável fonte de fragmentações, uma vez que fecha hermeticamente signos identitários, a sociedade exclui outras possibilidades de identidade.

A abjeção é salientada por Ortega (2008) no livro “O Corpo Incerto”, como um “pavor da carne”, uma rejeição corporal, que remete a animalidade, morte, vísceras, fluidos, partes de mim que devem ser expelidas, expulsas, para me inscrever na ordem simbólica. São corpos que trazem a tona a corporeidade e a dimensão carnal de suas mudanças físicas.

            A filósofa Judith Butler (2016) traz o caráter identitário da questão de gênero e seu desdobramento sobre os corpos, que ao fugirem da norma se dissolvem, são politicamente marginalizados. A autora destaca que não há possibilidade para a transformação nas estratégias políticas de reger corpos. Porém, há aqueles para os quais a norma causa estranheza, que a norma na tentativa de engessamento leva a busca por novas possibilidades, por transformação, transgressão, atualização do que está instituído, sedimentado. Nesse nó social surge um grande campo de tensões, de um lado aqueles que entram no normativo de maneira naturalizada, à esses que o dissidentes do gênero binário causam estranheza, ininteligibilidade, desprezo e até impulso de aniquilamento.

            São corpos que não seriam dignos, são corpos carregados de sentido degradante e desprezível, o pavor de uma determinada carne, como já colocado por Ortega (2008), da possibilidade de novas identidades, como destacado por Butler (2016).O antropólogo Hélio Silva (1993) na introdução de sua etnografia marca sua busca por uma dimensão humana da travesti da Lapa, o que nos leva a pensar o caráter desumano que há na figura travesti, esse corpo “desenquadrado” e por isso abjeto, é desprovido de humanidade, é monstrificado.

No dia 23 de junho de 2019, o Homofobia Mata, contabilizava 141 (cento e quarenta e uma) mortes por LGBTQIfobia no Brasil. O site é uma iniciativa que nasce de grupos de discussão LGBTQI+ na internet, com intuito de catalogar a violência perpetrada contra essa população. De acordo com o Atlas da violência 2019, organizado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em relação a violência contra a população LGBTQI + há uma total invisibilidade desses corpos no que se trata de indicadores utilizados pelos órgãos públicos no que tange sensos e também documentos oficiais utilizados para contabilizar ocorrências de violência. Não sabemos sequer o tamanho da população LGBTQI+, e precisamos recorrer a iniciativas como a do site Homofobia Mata e do Grupo Gay da Bahia (GGB), que em 2018 organizou um relatório chamado “População LGBT Morta no Brasil”, em que traz o crescimento vertiginoso desse tipo de crime, são dados alarmantes e que estão longe de um numero próximo do montante total, uma vez que reúnem seus dados apartir de matérias de jornal e mortes reportadas em postagens online.

            São crimes cometidos com requintes de crueldade, em 2017 assistimos pelas redes sociais ao assassinato de Dandara, mulher trans de Fortaleza – CE. Dandara foi morta a luz do dia, em uma sequencia de agressões físicas, com os mais diferentes instrumentos, desde socos a pauladas. A natureza cruel da morte de Dandara denuncia a maneira com a qual ela é vista de maneira abjeta, desumana, o vídeo gravado e divulgado pelos próprios agressores assinala a certeza que eles tinham de que ficariam impunes ao crime, uma vez que a morte de pessoas marginalizadas são, na maioria das vezes, ignoradas pela mídia e até mesmo pelas autoridades.

            Estamos vivendo tempos em que forças conservadoras e fundamentalistas buscam nas diversas áreas, brechas para reforçar práticas que endossem a dicotomia, mesmo que essas práticas recorram a violência e aniquilamento da diferença em nome da não mudança. Dentre os muitos caminhos que podemos tomar para defender o direito ao trânsito, exercendo a liberdade e o direito a existência, qual sereia o lugar da psicologia e da Gestalt-terapia?

            Partindo da ideia essencial da clínica gestáltica como espaço de escuta e encontro, podemos pensar aqui de que tipo de escuta a psicologia se ocupa. Entendemos que uma psicologia que esteja a serviço das pessoas, da liberdade de ser e exercer sua diferença, não pode ter em seu horizonte a cura e a doença. Nesse sentido é que entendemos a clínica não no sentido médico tradicional inspirado na etimologia de clínica como debruçar-se sobre o leito do doente, como aquela que escuta para curar, mas no sentido de clínica como clinamen, desvio (Alvim, 2012). Uma psicologia que lute dentro da própria classe para garantir a força de seu conselho profissional contra atitudes discriminatórias. Iremos aqui ressaltar a face política da psicologia, de transformação e compromisso social, uma vez que há no trabalho da psicologia um caráter de transformação, exercido a partir de uma ética da alteridade e de uma clínica que se funda no que é humano, na legitimação da diferença e dos muitos espaços de existência, implicada no mundo na situação contemporânea.

Para a Gestalt-terapia, contato é corpo em ato no mundo com o outro, envolvendo uma malha temporal de passado, presente e futuro. Estar engajado no mundo, em ato de vida é estar agindo em sua historicidade, é ação desviante e espontânea, dessa maneira há no trânsito de gênero potência motora de retomar um passado em atualização, reinvenção e ressignificação presente que aponta para um futuro. Pensando na perspectiva da Gestalt-Terapia poderíamos dizer que há certa dessensibilização e distanciamento de si envolvidos nessa intolerância ao encontro com o diferente e a experiência do descentramento na ameaça das certezas e no abalo das verdades instituídas.  A fixação em normas e representações e o fechamento em si pode representar uma perda de abertura para o contato e para a possibilidade de uma existência como fluxo e devir, estando relacionada com os modos neuróticos de estar no mundo.

Mas a vida permanece em sua força criadora. Dos guetos, das prisões, dos espaços heterotópicos, dos coletivos. Da arte, das universidades, dos movimentos sociais, da ciência crítica, das vozes e gritos de corpos sensíveis, de uma dimensão da sociedade que resiste e insiste na construção de um outro mundo possível onde o estético e o ético possam se entrelaçar dirigindo uma ação política, encontramos gesticulações políticas de resistência que afirmam o direito a [Trans]Existência.

Referências Bibliográficas:

ALVIM, M. B. A clínica como poiética. Estud. pesqui. psicol. Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, p. 1007-1023, 2012. Disponível em:< http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/8234/5996&gt; . Acesso em: 04 abr. 2016.

FÓRUM DE SEGURANÇA PÚBLICA & INSTITUTO DE PESQUISA ECONˆOMICA APLICADA (Org.), Atlas da Violência 2019. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019.

BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. (Original:1990)

GRUPO GAY DA BAHIA, População LGBT morta no Brasil: Relatório GGB 2018. Disponível em: < https://homofobiamata.files.wordpress.com/2019/01/relatorio-2018-1.pdf> Acesso: 23 jun 2019.

ORTEGA, F. O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. 256p

SILVA, H. R. Travesti: a invenção do feminino. Etnografia. Rio de Janeiro: ISER, 1993. 176p.

HOMOFOBIAMATA, Disponível em: < https://homofobiamata.wordpress.com/quem-somos-2/> Acesso: 23 jun 2019.

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