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Palestra com Raewyn Connell – CLAM

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“O CLAM e o Laboratório Integrado em Diversidade Sexual e de Gênero, Políticas e Direitos (LIDIS/UERJ) promovem a palestra “Embodiment [“encorporação”] das mulheres transexuais: gênero, medicina e política”, ministrada por Raewyn Connell, professora emérita da Universidade de Sydney, no dia 13/04, às 14h, no AUDITÓRIO 111 (11º andar).”

Eu estive na palestra e compartilho aqui um pouco do que lá foi dito…

Connell começa sua fala explicando que irá permear a questão da narrativa trans, sobre a natureza da transição, a abordagem medica e as questões politicas de gênero e anti-gênero.

Ela fala sobre a “Embodiment” que foi melhor traduzida como “encorporação” do que é ser transexual, esse termo se refere a vivência corporal mais intima de SER, não como uma escolha, um estilo de vida ou uma identidade simplesmente, mais sim o SABER muito intimamente que se É e que esse saber é diferente do que os outros sabem. Essa é uma experiência extrema, vivida com terror, segundo Connell, ela cita que segundo estudos a cada 10 pessoas transexuais, 7 tem pensamentos suicidas, porém ela pessoalmente acredita ser esse número minimizado frente a realidade.

A pesquisadora fala de narrativas que não pertencem mais ao sujeito, fala de histórias que são sempre atravessadas pelas várias instâncias da vida, chama atenção para historias que são contadas sempre sob o controle do outro, do médico, do policial, do empregador, etc. Isso faz com que a pessoa trans perca o controle sobre sua própria história, sua narrativa é organizada em relação a demanda do outro, e que isso seria o equivalente a “tirar a própria pele e se expor” cada vez que existe a necessidade de se apresentar a qualquer dessas instâncias.

Ela traz em sua explanação o exemplo de uma organização sul africana em que um grupo de mulheres trans tem o controle de suas histórias e que a 5 anos publicaram um livro para contar essas historias.

Site do Grupo: http://www.genderdynamix.org.za/

Outro ponto por ela abordado foi sobre uma questão que a grande maioria das pessoas “cis” se perguntam, o porque da necessidade de uma transição corporal. É importante percebermos que a questão de gênero é atravessada pelo corpo, porém essas alterações físicas não são suficientes para dar conta da demanda desse individuo, porque essa demanda também envolve princípios sociais da questão de gênero. Daí podemos pensar o quanto que a abordagem médica é insuficiente, já que não dá solução para o social.

Um outro problema apontado foi sobre o desenvolvimento da medicina trans, que tem seu inicio na América do Norte e Europa entre as dec de 20 e 60. Inicialmente foi tratada pela psiquiatria, marginalizando essas pessoas e as rotulando como “loucas”, depois de maneira endocrinológica com os tratamentos hormonais, e por último com a cirurgia de ressignificação. Essa medicalização da questão trouxe para esse campo uma objetificação do sujeito trans, que deixa de ser um sujeito social para ser um objeto médico, criando assim um vazio social. Esse vazio foi “preenchido” pela psiquiatrização e psicologização desse sujeito objetificado. Com o neoliberalismo a situação medica muda para uma questão mercadológica, excluindo assim a grande maioria dos sujeitos que vivem em situação de pobreza devido a situação marginalizada. Essa privatização da medicina trans traz 3 problemas principais, segundo Connell, o valor alto dos procedimentos, a desregularização por falta de controle e a deslegitimação médica. Em relação a deslegitimação ela aponta o surgimento da organização WPATH que tem como foco promover pesquisas, educação, saúde e politicas públicas em respeito ao transexual.

Em relação a vertente politica, Connell sinaliza que começa na dec de 90 na Califórnia, em um contexto em que tais questões eram abordadas de maneira estrutural, e que as mulheres trans era vistas como um gênero não normativo, isso traz um simbolismo em relação a identidade, o não normativo como dificuldade de plena expressão, sendo necessário a “liberação social”, ou o apoio social, para que haja maior liberdade de expressão por esse grupo. Chama atenção para o fato do foco na transição tirar o gênero do quadro geral,  colocando esse homem e essa mulher trans com esse prefixo, e não como simplesmente MULHER e HOMEM. Para ela o gênero não questionado é uma questão central para esse sujeito, tal prefixo tira a possibilidade de gênero, qualquer que seja ele, da pessoa.

Finaliza sua fala com a proposta de um programa de quatro pilares:

  1. Segurança em relação a violência, tanto na esfera civil quanto na esfera do estado, no sentido de assegurar esse sujeito perante ao policiamento e as prisões.
  2. Segurança seconômica. A pobreza é um problema fundamental para garantia dos outros pilares inclusive.
  3. Serviço de saúde com cobertura pública. Porque a medicina neoliberal nunca vai chegar a todos.
  4. Apoio social, incluindo moradia, serviços de apoio, emprego, etc.

Em suas própria palavras diz ser esse um programa utópico e que envolve politicas de classe, feministas, LGBT, saúde e saúde do corpo.

“Estou pensando que precisamos de uma nova síntese das politicas do pensamento para dar conta dessa questão.” Connell, 2015.

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Mais informações sobre Raewyn Connell clique aqui.

Outro olhar sobre a palestra no site do CLAM.

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