Eventos / Gestalt Terapia / Sexualidade

II Trasemana do Estado do Rio de Janeiro

Dos dias 03 a 07 de novembro aconteceu no Rio de Janeiro o evento II Transemana, infelizmente só pude comparecer a um dia de evento, mas não posso deixar de registar aqui a riqueza que foi esse dia e o quanto já estou aguardando ansiosa pela terceira edição, já que tanto ainda se tem a mostrar e discutir sobre o tema.

A rica programação foi essa:

Divulgação-Transemana-email-menor

Fui no dia 04 de novembro e já cheguei com o evento começado, mas cheguei a tempo de ouvir o fim  da maravilhosa Indianara Alves Siqueira na Faculdade Nacional de Direito FND/UFRJ.

Roda de conversas: Putas a-gentes
Dissidentes:
– Indianara Alves Siqueira (Transvestigenerx, prostituta e assessora parlamentar)
– Monique Prada (Prostituta e autora do blog http://acortesamoderna.com.br/ )
– Soraya Simões (Professora do IPPUR-UFRJ e coordenadora do Observatório da Prostituição/LeMetro/IFCS-UFRJ)

Putas A-Gentes era o tema da roda de conversa onde Indianara Alves Siqueira, prostituta e assessora parlamentar, chamou atenção para o fato de que ainda hoje percebemos uma fala preconceituosa e mantenedora do preconceito quando ainda utilizamos os termos “Filha da Puta” para ofender alguém,  ou ainda, mandar alguém ir “tomar no cu” como se essa maneira de ter prazer sexual fosse algo ruim e indigno. O quanto que grupos oprimidos repetem falas opressoras sem perceber, mantendo e dando base para um discurso de ódio.soufeliz

Sua fala se voltou também para a necessidade dessa classe profissional ter uma regulamentação, que em seu núcleo já está organizada desde a dec. 80, ressaltou que a PL Gabriela Leite foi feita pela própria rede de prostituição e traz em seu texto as reais solicitações das/dos interessadas/os. Se faz pertinente pensarmos que a regulamentação de qualquer profissão só é de fato útil se atender a própria classe e não dar voz a projeções preconceituosas de uma sociedade que olha de maneira hipócrita e normatizadora. Há no texto, por exemplo, a descriminilização da profissão de cafetão/cafetina, e cria regras para os locais que dão infraestrutura para a/o profissional, os chamados “puteiros”.

Indianara pensou de maneira análoga a questão dos locais que infraestruturam essas/es profissionais podemos pensar em outras profissões que tem a mesma função e são vistas com os “bons olhos” sociais, como por exemplo, o salão em relação a manicure, ou ainda, os agentes e os jogadores de futebol.

A prostituta chama atenção também para o trabalho sexual que é feito fora das normas normalizadoras de corpos, onde o prazer é o foco sem discriminar, não importando se o cliente é “feio” ou “bonito”, se é portador de alguma deficiência ou não, trazendo para esse trabalho um cunho social e de quebra de padrões. Em suas palavras:

“O prazer não é dado pela forma”

Siqueira, Indianara

piranhaTambém em sua fala denuncia o já conhecido “poder das ruas“, em que a força policial que de acordo com as “puritanas” leis existentes deveria coibir o trabalho na realidade cobra para “proteger” profissionais e não “incomodar” os estabelecimentos.

E ainda, a mais grave das denúncias, a delação (também já MUITO bem sabida) de que vivemos inseridos em uma sociedade, machista, patriarcal e extremamente moralizadora, cujas regras de moral são provenientes de normas excludentes e elitistas e que por conta de se falar em nome dessa moral há a tentativa de silenciar o movimento da profissional do sexo, dando a esse movimento uma voz que não é delas, marginalizando personagens importantes dentro do arranjo necessário desta profissão.

Picasso_prostitutas

No momento de abertura para perguntas e trocas entre público e mesa, a filósofa Leila Dumaresq em resposta a colocação de uma médica presente levantou a questão da patologização de transexuais, levantando a seguinte questão:

“…tem mais gente tirando pênis do que precisa…”

Leila Dumaresq

Trazendo com  essa fala a impossibilidade de trânsito em que a psiquiatrização lida com essas pessoas, em sua fala sinalizou que urge a necessidade de discutirmos o real papel da medicina na transexualidade. Seria mesmo, a questão trans, abarcada pela psiquiatria? Na sugestão da acadêmica, talvez fosse mais bem administrado pelo sanitarista já que esse é o especialista em saúde pública.

A mesa com tema Direitos Humanos, Educação dialógica e práticas pela libertação veio em seguida.

Mesa: Direitos Humanos, Educação dialógica e práticas pela libertação
Dissidentes:
– Benjamim Braga (Mestrando em Clínica Médica e professor)
– Jaqueline Gomes de Jesus (Psicóloga Social e do Trabalho)
– Vanessa Batista Berner (Professora da FND, do PPGD/UFRJ e coordenadora do Laboratório de Direitos Humanos/UFRJ)

A primeira fala foi do professor Benjamim Braga que trouxe um triste retrato da invisibilidade da pessoa transexual nas escolas, o quanto que alunos e professores trans vivem todos os dias o preconceito e a dureza normativa e que este fato leva jovens a evasão escolar, o que alimenta a impossibilidade de mercado de trabalho para esse sujeito que é obrigado a “subviver”. Em sequência a fala foi da psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus que endossou o quanto que a educação não é um espaço de libertação como deveria, mas sim um instrumento de controle, que invisibiliza e coloca em fôrmas sociais os poucos que a ela tem acesso.

Por último ouvimos a fala da professora Vanessa  Batista Berner, que também deliberou sobre a escola como fator de controle, e foi além, colocando a possibilidade de dominação pelo conhecimento como uma estratégia de poder, trazendo clareza sobre a ciência moderna que não inclui uma relação dialógica diante as relações de poder dominadoras, levando a impossibilidade de um saber ético, ou seja, AMORAL.

Alerta para o fato de que a separação de um povo da “razão” é antidemocrático, aristocrático e elitista. Assim fazendo desconhece a diversidade, a riqueza temática  das micro sociedades que constitui o cosmos social em sua totalidade. E diz ainda que movimentos sociais em sua maioria adotam a ideia dialógica e que é na rua, junto de seu povo, que uma sociedade tem como possibilidade exercer a verdadeira ciência.

Para fechar esse artigo deixo aqui a sugestão do filme Kátia, um filme de Karla Holanda.

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