Sexualidade

Identidade de Gênero e orientação sexual, são farinha de sacos muito diferentes!

“Sucede que me canso de ser hombre. Sucede que entro en las sastrerías y en los cines marchito, impenetrable, como un cisne de fieltro/ navegando en un agua de origen y ceniza. El olor de las peluquerías me hace llorar a gritos. Sólo quiero un descanso de piedras o de lana, sólo quiero no ver establecimientos ni jardines, ni mercadeíras, ni anteojos, ni ascensores.  Sucede que me canso de mis pies y mis uñas y mi pelo y mi sombra. Sucede que me canso de ser hombre.” (NERUDA,2008,p.84)

Muitos autores afirmam que o conceito de si mesmo perpassa pela identidade sexual, que só é possível para uma criança o reconhecimento de si, a formação de sua identidade a partir do momento em que se situam como menino ou menina.

Bee (1977) afirma que a parte do auto-conceito mais importante é a descoberta e a postura da criança perante seu próprio sexo, diz ainda, ser parte da auto-imagem o reconhecimento de si como menina ou menino, sendo assim a descoberta deste sexo torna-se um marco no desenvolvimento da identidade dessa criança.

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Para Mussen, Conger e Kagan (1977) a adoção de uma série de características como comportamento, valores, interesses, entre outros, que são considerados apropriados para meninos ou meninas, dependendo do meio em que se esta inserido, ou seja, quando ocorre a interiorização de padrões desta determinada cultura. Esse processo é chamado pelos autores de “tipificação sexual”, e o apontam como de extrema importância para a criança no período pré-escolar, sendo motivo de grande preocupação para os pais a adequação do comportamento sexual considerado adequado culturalmente por seus filhos.

São comportamentos culturalmente determinados, por exemplo agressividade esta relacionada a um comportamento masculino enquanto que a passividade seria tipicamente feminino, apesar de tais normas mudarem de acordo com a cultura é mais comum que meninas sejam  encorajadas a obedecer, serem responsáveis, afetuosas e os meninos a serem auto-confiantes, independentes, fortes etc. Esses estereótipos são normalmente muito bem definidos, a ponto de a criança com cerca de 5 anos já perceber quais são os brinquedos e as atitudes pertinentes ao seu sexo, neste momento as identificações com os pais, irmãos e pessoas próximas irá servir como modelo, segundo os autores:

“O filho de um homem socialmente sensível é passível de ser socialmente sensível se se identificar com seus pais, mesmo que “sensibilidade” seja encarada como algo “feminino, por sua cultura. O que de fato nos interessa, na identidade do papel sexual, não é o papel sexual estereotipado, mas a atitude da criança perante si mesma, o grau que um indivíduo se considera como masculino ou feminino.” (MUSSEN, CONGER & KAGAN, op. cit., p.333)

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Os autores ressaltam que esta identificação irá depender de fatores como, afeto, cuidados, competências e poder, por exemplo, caso a criança não tenha uma visão positiva dessas pessoas não quererá identificar-se com elas. Acreditam que este processo de organização e da tipificação e papel sexual começa desde o momento que a criança é anunciada como menino ou menina. Para os autores “o auto-conceito fundamental de gênero que a criança tem, sua categorização de si mesma como menino ou menina, torna-se, o organizador e o determinante principal de suas atividades, valores, atitudes, motivos e modos de pensamento.” (MUSSEN, CONGER & KAGAN, op. cit., p.334)

Andrade-Silva (1999) aponta como núcleo de base da identidade sexual o relacionamento parental, a genitália externa, capacidade cognitiva, linguagem, etc. A cultura imputa padrões de comportamento aos indivíduos a partir do que é esperado do ser homem ou mulher, são esses chamados de “Papeis Sociossexuais”, e variam de acordo com os padrões dicotômicos de culturas diferentes, a tipificação social se inicia desde o momento em que é anunciado o sexo do bebê. Segue a autora:

“Identidade sexual, ou de gênero, é um conceito extremamente complexo, formado de componentes conscientes e inconscientes, possuindo elementos altamente associados ao sexo a que se pertence e às características estabelecidas pela estrutura social como próprias a cada gênero. Assim, a identidade de gênero não é um constructo mental unitário, pois um grande número de diferentes componentes estruturados em diferentes épocas de desenvolvimento e advindos de diversas influências formarão a composição final do que chamamos identidade de gênero de um indivíduo.” (op. cit, p.44 – 45)

Na identidade sexual estão envolvidos componentes conscientes e inconscientes, Andrade-Silva (op. cit) diz ainda que a formação da identidade de gênero é um aspecto básico do desenvolvimento da personalidade do sujeito e se interpõem a aspectos psicológicos e socioculturais que interagem sobre a estruturação do indivíduo. A autora chama atenção para a estrutura social dicotômica a que pertencemos na qual, “ao ver um bebê, imediatamente necessitamos saber se é menino ou menina. Parece que não nos sentimos a vontade para uma interação não diferenciada” (p.44).

A identidade de gênero começa a sua trajetória desde o momento em que a criança é anunciada como menina ou menino, e de acordo com a forma com que as pessoas que rodeiam essa criança lidam com ela, irá se formando seu reconhecimento e seu comportamento vai se adequando ao que lhe é exigido pela cultura de uma maneira geral, o que nos leva a crer que boa parte das diferenças percebidas entre homens e mulheres podem ser advento de uma sociedade dividida em uma dicotomia.

Orientação Sexual

“Seria melhor para nosso conhecimento se os termos pudessem ser completamente retirados de nosso vocabulário, por que então a conduta sócio-sexual poderia ser descrita como sendo uma atividade entre mulheres e homens, ou entre duas mulheres , ou entre dois homens , e isto constituiria um registro mais objetivo do fato.” KINSEY, 1953, p..

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Kinsey (1953) aponta para as várias formas de preferência a determinados estímulos, agindo ou reagindo de acordo com a forma de estimulação e o que o estimula, afirma que assim como o sujeito pode preferir certos tipos de parceiro sexual, prefere que este seja alto ou baixo, que tenha uma determinado tipo de cabelo ou cor de cabelo, de uma idade mais avançada que a sua ou mais novo ou ainda de sua própria idade etc. Ressalta também que estudantes do comportamento animal puderam perceber certo comportamento de aversão ao coito quando em sua primeira experiência ocorreu algum tipo de desconforto, indiferentemente para escolhas de parceiro em relações homossexuais ou heterossexuais. O autor destaca que apesar de determinada escolha parecer extremamente incompatível para determinado grupo, pode ser extremamente valorizada por outro, Kinsey (op. cit) afirma que:

“Conduta que pode parecer bizarra, pervertida ou inconcebivelmente inaceitável a algumas pessoas e mesmo à maioria das pessoas, pode contudo ter importância para outros indivíduos, em virtude do modo pelo qual foram adaptados.” (p.617).

De acordo com Souza Filho (2008) orientação sexual trata-se de atração e desejo sexual de um sujeito por outro de determinado gênero, vale ressaltar que orientação sexual não vale somente para homossexualidade como muitos pensam, reconhece-se como orientação sexual a bissexualidade, a heterossexualidade e a homossexualidade, o autor chama a atenção para a possibilidade de tornar o termo orientação sexual um atributo, biológico, médico, psicológico, e dessa maneira voltar a tempos em que outros termos eram usados para demarcar uma diferença, um desvio, e assim sendo o termo virar mais uma possível explicação para a causa da homossexualidade como se esta orientação necessitasse ser explicada, produzida no sujeito, que assim como não há explicações para as possíveis causas da heterossexualidade não podemos nos deixar levar por causas de qualquer atração entre pessoas, seja do mesmo sexo ou não.

Podemos pensar a orientação sexual como a forma do sujeito se relacionar e não a forma que a pessoa é, por isso não podemos lidar como se homossexual, heterossexual ou bissexual, fosse uma maneira de categorizar, sendo um equivoco rotular pessoas dessa maneira, já que para vários autores todos somos potencialmente hetero, homo ou bissexuais sempre, e podemos mudar nosso objeto de amor a qualquer momento.

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Concluindo (ou não)

No decorrer deste artigo podemos nos situar com vários autores a respeito da formação da identidade de um sujeito, a importância desta identidade como o que há de mais fundamental na formação deste indivíduo, como um núcleo fundamental da existência humana, o quanto neste momento o meio cultural esta fortemente presente e ditando regras para que tudo saia de acordo com o esperado, porém não podemos deixar de pensar que o meio cultural é produto do ser humano e vice-versa, por tanto, esta em constante movimento e mudança, e é exatamente por isso que atualmente nos deparamos com tantas outras questões, de pessoas que não se sentem enquadrados em nenhuma das orientação já descritas, seria o caso de pensamos na criação de mais uma ou duas para que essas pessoas se classifiquem, ou teríamos que pensar se esses rótulos são realmente necessários? Torres e Jurberg (2002) defendem que estas classificações não fazem sentindo enquanto classificações, que apenas nomeiam estados momentâneos na vida de um sujeito, que pode estar homossexual ou heterossexual, Kinsey (1954) diz ainda que só podemos pensar em homossexualidade porque rotulamos pessoas como heterossexuais, e que a sociedade humana tem necessidade de dicotomias, como certo e errado, anormal e normal, e mais uma pergunta se forma, estamos vivendo um momento em que as pessoas querem poder quebrar essas dicotomias e serem livres para passear entre os extremos sem terem que decidir por um lado especifico? A resposta a todas essas e muitas outras perguntas não esta neste artigo, mas com ele podemos perceber que rótulos e classificações rígidas não são mais suficientes para definir, as atuais formas de expressão da sexualidade, de papeis de gênero, e de objetos de amor que são possíveis para uma sociedade, e que continuar se prendendo em tais rótulos pode levar-nos a perder de vista a riqueza da amplitude de possibilidades que o sujeito deveria viver com o outro e dessa relação tirar o melhor proveito possível para ambos serem felizes de maneira plena.

Muriel/Hugo é um personagem do cartunista Laerte

Muriel/Hugo é um personagem do cartunista Laerte

Aproveito esse post para divulgar o trabalho de um escritório de advocacia em São Paulo que faz um trabalho muito importante:

“Rosan Coimbra & Associados – Direito LGBT é uma sociedade de advogados especializada na defesa dos direitos e da cidadania de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e outros transgêneros. A sociedade é chefiada pelo especialista em direito constitucional Dr. Rosan Coimbra, um advogado com 25 anos de experiência profissional.”

 http://www.rosancoimbra.com.br/direitolgbt/

Referências Bibliográficas

  • NERUDA, P. Antologia Poética. Rio de Janeiro, Ed. José Olimpio, 2008.
  • MARSTERS, Willian H. & JOHNSON, Virginia E. KOLODNY, Robert C. O Relacionamento Amoroso; segredos do amor e da intimidade sexual. [Tradução: Helísa Gonçalveis Barbosa] Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982.
  • MASTERS, W. H. & JOHNSON, V. E. A Incompetência Sexual. Ed. Brasileira, 1970.
  • MASTERS, W. H. & JOHNSON, V. E. A Resposta Sexual Humana. Ed. Roca, 1984.
  • MASTERS, W. H. & JOHNSON, V. E. Heterossexualidade. Ed. Bertrand Brasil, 1997.
  • MARSTERS, Willian H. & JOHNSON, Virginia E. KOLODNY, Robert C. O Relacionamento Amoroso; segredos do amor e da intimidade sexual. [Tradução: Helísa Gonçalveis Barbosa] Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982.
  • FISHER, Helen E. Anatomia do Amor: a história natural da monogamia, do adultério e do divórcio. [Tradução: Magda Lopes e Maria Carbajal] Ed. Eureka, 1995.
  • LEIBLUM, S.R. Princípios e Práticas de Terapia Sexual. Ed. Jorge Zahar, 1980
  • TEXEIRA, A. C. P. Resposta Sexual Feminina. Apresentação em Power Point, 2008.
  • TEXEIRA, I. Principais Disfunções Sexuais. Apresentação em Power Point, 2009.
  • KAPLAN, H. S. A Nova Terapia do Sexo. Ed. Nova Fronteira, 1974
  • KINSEY, A. C.; MARTIN, C. E.; POMEROY, W. B. & GEBHARD, P. H. Conduta Sexual da Mulher. Ed. Livraria Atheneu S.A., 1953.
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